No próximo dia 20 ocorre o primeiro turno para as eleições para reitor da USP. Ao longo do ano ficou evidente a falta de democracia em uma das maiores universidades públicas da América Latina ao ter sido chamado a tropa de choque para reprimir o movimento social que reivindica melhores condições para a educação pública. Ao invés de dialogar com o conjunto da comunidade acadêmica, a reitoria se fechou e colocou a força militar para intermediar o diálogo. Essa disparidade é ainda mais clara no processo de escolha do novo reitor.
E a EACH, o que pensa?
A Escola de Artes, Ciências e Humanidades foi aberta em 2005, junto à política de extensão de vagas do governo estadual, que iria incorporar em 2006 a antiga FAENQUIL aos quadros da USP (hoje Escola de Engenharia de Lorena – EEL). No entanto, a abertura de um novo campus com novos cursos passou longe de ter sido debatido pela comunidade universitária. O que não foi dito é que a verba especial que esses campi iriam receber duraria 4 anos: passado isso, ficam submetidos ao repasse dos 9,57% do ICMS para as universidades estaduais públicas.
Até mesmo pela pressa com que foi implementado o campus, muitos cursos tiveram problemas com suas grades, sendo pensadas e formuladas ao longo de cada semestre que iniciava. Outra questão a se pensar, é que alguns professores não lecionam em sua área do conhecimento, dado haver poucos professores doutores próprios aos cursos da unidade. A biblioteca ainda hoje possui acervo insuficiente e os laboratórios levaram anos para serem construídos. O regimento da EACH foi elaborado após sua própria implementação, apresentando como ponto facultativo a presença de departamentos: mais uma vez, pouco debate a respeito de tal medida e pouco conhecimento sobre ela – uns acham que cria maior interdisciplinarida de, outros que concentra poder…
Outro problema é que alguns cursos não possuem a profissão regulamentada – como é o caso de Gestão Ambiental e Obstetrícia. Nesse último, no ano passado os estudantes tiveram sérios problemas com o estágio, sofrendo até mesmo com o preconceito do diretor do hospital e afastamento do estágio obrigatório. Com a EACH, são abertas mais de 4000 novas vagas, porém com clara deficiência nas políticas de permanência estudantil. Até hoje o campus não possui nenhum tipo de moradia estudantil, não só uma necessidade, como também um direito para aqueles que ingressam na universidade pública. A falta de assistência estudantil é a principal causa para a evasão, mais ainda quando se trata de alunos de baixa renda.
Frente ao cenário, o que nós estudantes, podemos fazer para conquistar maior participação nas decisões da USP? Os estudantes podem cumprir um importante papel, tomando conhecimento da situação e intervindo nela. E esta conquista, entre os estudantes, só poderá acontecer se contarmos com uma entidade de representação estudantil que esteja presente em todos os cursos, em todos os campi, cumprindo o papel de integrar as diversas realidades na mesma direção. Porém, a atual gestão do DCE, “Nada Será Como Antes”, demonstrou não reconhecer a devida importância que a entidade deve ter entre os estudantes. Ao longo do ano, não se atentou às reais questões dos estudantes, na Capital e no Interior, e, quando esteve presente nos cursos, optou por deixar em segundo plano as discussões e problemas das unidades e campi, que também são fruto de uma estrutura de poder antidemocrática. Agora, neste processo eleitoral, dificulta nossa participação ativa na luta pela democracia, optando pelo boicote às eleições para reitor.
Devemos questionar como essas decisões foram tomadas, passando longe da possibilidade de professores, funcionários e estudantes discutirem apropriadamente o que esperam de um novo campus, ou, quando da sua abertura, como as categorias presentes na unidade poderão pensar e questionar a realidade de seu curso e campus defendendo a qualidade de ensino. Muitas deficiências ainda perduram e somente a real participação da comunidade acadêmica permitirá que sejamos ouvidos e nossas demandas atendidas rompendo com o isolamento da EACH com os demais campi. Para isso, é importante que possamos dizer quem é o reitor que expressa melhor os anseios da universidade, mas também, em novembro, possamos dizer quem será o novo diretor da EACH.
Democracia na USP Já!